Chipre: Boa Sorte, Europa!

Março 18, 2013 § 4 Comentários

Se no essencial é o mesmo – irem-lhes aos depósitos, ou irem-lhes ao salários – politica e eticamente, é fundamentalmente diferente. A tributação pelo Estado – extraordinariamente ou permanentemente – é feita nas devidas instâncias, no devido tempo, por pessoas que o sistema democrático dá a opção de destituir. Desta última forma, os cidadão são igualmente “roubados”, mas aguentam melhor, como diria um certo bancário da nossa praça.

Que diferença um dia faz! Especialmente se for feriado, formos cipriotas e tivermos depósitos em bancos com morte anunciada. O contexto de Chipre é, essencialmente, o da Irlanda há três anos atrás: o sistema bancário vê-se completamente descapitalizado, após perdas registadas com a desvalorização acentuada de ativos a que estava sobre-exposto. Na Irlanda foi o imobiliário, no Chipre foi a dívida grega – sim, do outro lado “daquele perdão” (lembram-se?) estavam, entre outros, bancos cipriotas. « Read the rest of this entry »

A Benção da Única Alternativa

Março 12, 2013 § 7 Comentários

A continuada ausência de alternativas exequíveis – daquelas que não criariam mais problemas, que os que supostamente pretendem resolver – leva-me a “suspeitar” que, tal como para Inglaterra de então, para o Portugal de agora, não existe outra alternativa. E tal como para Inglaterra de então, o que inicialmente pode parecer o flagelo da inevitabilidade, poderá acabar por revelar-se a benção da única alternativa. (O Autor)

O artigo anterior fez-me pensar (credo!)… no seguinte. Portugal, a meu ver, está a atravessar uma fase, em certa medida, comparável à que a Inglaterra viveu na década de 70, que conheceu seu momento-pivot na eleição de Margaret Thatcher, em 1979. Se lermos sobre Inglaterra na década que antecedeu esse momento, não reconheceremos a nação económica, política e culturalmente pujante – ou a nação relevante e influente – em que se tornou, ao longo das três décadas seguintes. Leremos, sim, sobre uma nação em profunda convulsão; um país económica e socialmente deprimido. Não é por acaso que surge o movimento “punk” – caracterizado pela agressividade que emanava de letras, melodias e interpretações – como a mais conhecida contra-reacção à depressão social em que Inglaterra vivia. O primeiro grupo de imagens, ao fundo, ilustra bem este período, sendo que são narradas, curiosamente, por John Lydon (aka, Johnny “Rotten”), vocalista dos extintos Sex Pistols – a mais emblemática e famosa das bandas punk inglesas. « Read the rest of this entry »

TINA

Março 12, 2013 § 1 Comentário

Não, não é a estreia nas bancas da última revista de gosto duvidoso. É sim, uma imagem de como é tudo tão diferente e tão igual, do outro lado do canal. Manuel M escreve.

Regressado a esta minha Pátria adoptiva, após mais de três semanas bem para além da Taprobana, encontro tudo num frenesim com a aproximação da data da publicação do próximo Orçamento. Que a oposição reclamava um atenuar das medidas de austeridade – o chamado “plano B” – para não agravar ainda mais a recessão, era conhecido. Mas aquilo que não se sabia era quão profunda era a fractura entre os próprios membros do governo, no que toca aos cortes drásticos que se adivinham . Vince Cable, Theresa May, Ken Clarke e outros pesos pesados, trouxeram para a praça pública a intensa gritaria que vai em Whitehall, sobre quais as opções a tomar. Ao mesmo tempo, a imprensa conservadora, num patético arrancar de cabelos, declara desde já perdidas para os Tories as próximas eleições gerais de 2015.

George Osborne e a célebre pasta vermelha, a caminho de apresentar o Orçamento de Estado de 2012 (por Bimal Sharma/Demotix/Corbis)

George Osborne e a célebre pasta vermelha, a caminho de apresentar o Orçamento de Estado de 2012 (por Bimal Sharma/Demotix/Corbis)

Mas eis que David Cameron e o seu Chanceler do Tesouro, George Osborne, vêm a terreiro declarar, solenes e determinados, que a austeridade irá continuar e que o gládio dos cortes irá cair, se possível, com aumentada crueldade, sobre os mais fracos, inermes e indefesos membros da sociedade. Foi o que bastou para que os jornalistas – que, nestas coisas, têm memórias de elefante – publicassem em parangonas que tinha regressado a politica de Margaret Thatcher, com a sua impiedosa brutalidade, a famosa “TINA”, ou seja “There Is No Alternative”.

Mas a facas saíram das bainhas, e as conspirações fervem, pois os políticos britânicos não têm feitio para serem cordeiros levados ao sacrifício, em nome de políticas que fazem da obstinação a sua única razão de ser. Como suspiraria de alivio Cameron se, em vez da Câmara dos Comuns, tivesse a Assembleia da República!
Manuel M.

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Poll Tells Cameron to Fire Osborne as Austerity Targeted (Bloomberg, 10-03-2013)
Budget 2013: How George Osborne ran out of ideas (The Spectator, 09-03-2013)
OBR chief writes to Cameron disputing his austerity programme claims (Guardian, 08-03-2013)

Desta Vez É Diferente

Fevereiro 16, 2013 § Deixe o seu comentário

Em jeito de sinopse e review: “This Time is Different – Eight Centuries of Financial Folly [...] é uma obra densa, um verdadeiro tour de force intelectual onde, logo no prólogo, os autores avisam que consiste numa história quantitativa das crises financeiras do passado, nas suas diversas formas, destinada a provar uma coisa muito simples : Isto, a presente crise, já aconteceu antes!”
Manuel M.

Sempre que uma crise financeira bate à porta, os economistas, graves e pesarosos, anunciam, urbi et orbi, que se as suas previsões falharam foi porque, desta vez, ela ter sido diferente de todas as anteriores. Já George Bernard Shaw uma vez disse que previsões era muito difíceis, especialmente sobre o futuro. Portanto, que não nos falte a caridade para com uma profissão, cujos membros, sem desanimarem, porfiam em desvendar o que o amanhã nos reserva. « Read the rest of this entry »

Europa Entre os Bretões

Janeiro 31, 2013 § Deixe o seu comentário

Assim, ele Cameron, se for ainda primeiro-ministro, o que o eleitorado, na sua infinita sabedoria, não deixará de garantir, magnanimamente aconselhará o “sim”, com a condição de os restantes 26 membros aceitarem o “repatriamento” de poderes actualmente detidos por Bruxelas.
Manuel M.

Parece tudo correr mal, do outro lado do canal. Começa porque era possível descrever, de uma maneira fácil, os diversos tipos de recessão, com quatro letrinhas apenas. Referindo-se à forma assumida pela curva do produto nacional – em que ramos ascendentes são “bons”, e descendentes “maus” – tínhamos assim as em “L”, as em “U”, em “V” e as duplas, ou seja, em “W”. Era possível, mas deixou de o ser. Dados recentes da economia britânica mostram que, tendo esta saído precisamente de uma recessão em “W” ou “double-dip”, regressou a um novo ciclo recessivo. E a menos que se invente outra letra, possivelmente parecida com um “VVV”, os economistas terão que descobrir que novo nome dar a este fenómeno. « Read the rest of this entry »

Mercados a Oeste

Janeiro 23, 2013 § 9 Comentários

Nem as chicotadas de areia trazida pelo vento, nem os protestos dos mais fracos de espírito, nada parece penetrar naquele rosto de pedra. E assim, a caravana tem vindo a avançar, devagar mas sem parar, seguida à distância pelos cães selvagens do deserto, esses carnívoros oportunistas, que se alimentam dos que caem por terra, dos irresolutos que ficam pelo caminho, por desespero ou desnorte.

.

A caravana avança em direcção ao grande nada, o deserto que se estende até ao horizonte. São já mais de vinte meses de viagem, desde o dia em que os poços secaram, quando não houve mais nada a fazer, que não partir. Partir, sem certezas, mas sem outro remédio. Foram muitas as vozes que se insurgiram. Dizia-se que os poços não estavam secos; que o que havia, era desperdício de água; que havia até quem a roubasse. Partir, não era a vida com que tinham sonhado. Tinham direito àquelas terras, a eles dadas e, como tal, suas por direito. Uma conquista de uma vida de luta, não podia ser deixada assim, para trás. Mais: as crianças não iriam aguentar até ao oásis mais próximo. Esse oásis que se sabia existir, embora não se soubesse onde, exactamente. « Read the rest of this entry »

O Leito de Proscrutes

Janeiro 20, 2013 § 2 Comentários

Sobre “Governo tem plano B caso o Constitucional chumbe o Orçamento”, uma nota curta e um paralelo com os clássico da literatura, de Manuel M.

Na mitologia grega, Procrustes, filho de Poseidon, tinha uma casa à beira da estrada sagrada, que ligava Atenas a Eleusis, na qual existia um leito muito especial.

Os viajantes eram convidados para um merecido descanso e, mal adormeciam nessa tal cama, se fossem mais compridos do que ela, Procrustes cortava-lhes as pernas à medida. Já se por acaso fossem mais curtos, seriam esticados por um sistema de roldanas, até terem exactamente o mesmo tamanho que a cama.

Veio-me esta história à memória a notícias que me chegam sobre as terríveis consequências para o país, segundo o Governo, se o Tribunal Constitucional declarasse inconstitucionais algumas das normas do Orçamento. Na perspectiva do Governo, os doutos Juízes representariam assim o papel de Procrustes, o leito seria o símbolo do supremo interesse nacional (a definir caso a caso…) e a Constituição seria personificada pelo inocente viajante.

Aguardo curioso por saber se os Magistrados aceitarão representar este seu papel e se, portanto, se tratamos de uma tragédia ou de uma comédia, o que em última analise depende sempre da perspectiva do espectador.

Manuel M.
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